quinta-feira, 24 de julho de 2008

Epílogo (Graças a Deus!)

Estou cansado de escrever.
Para um dia, de tão poucas horas,
Já basta de tanto ver.
Quero ser cego, ser surdo e apenas
Ter a doce sensação, sem delongas, nem demoras,
De já tudo saber.

Obrigado a esta Entidade, a este Ser,
Que de nome lhe chamam Deus,
Por ter estes dons, que não são meus,
De escrever o que estou a viver...

Adeus!

Em homenagem a um dia produtivo...

Luca Santorini

Brisa de Mãe

Inebriado,
Anestesiado,
Angustiado,
No pecado...
Assim vive o Homem da Terra.
Assim vivo Eu.
Quem me prometeu
A paz depois da guerra?
Ninguém!
Mas alguém,
Que sente o que vos digo,
Também me disse,
Que não há maior chatice
Que a do castigo
De viver na esperança
Da mudança
Eterna.

A Luz Materna,
Que me alumia,
Também me alivia
Da culpa, com a sua mão eterna:
- Meu filho. Todos estamos aqui.
Eu também já vivi
Os caminhos da tua amargura.
Mas, na frescura de um novo dia,
Sente a brisa que, de mim, se esvazia.
Pois, no vento que te dou,
Está a ternura
De quem sou...

Para todas as Mães que tornam o nosso caminho mais fácil...

Luca Santorini

Para o meu filho Luca

Ó criatura estranha
Que, vinda de mim, não és minha.
A ti te quero dizer, de teu nome Luca,
Que o sentir que agora sinto,
Sendo meu, é de uma entranha
O lugar que a ocupa...
Uma ternura que pressinto...
Uma ternura que é só minha.

Sem querer,
Sem nada fazer,
A tua luz ocupou a imensidão
Do lugar vago do meu coração.
O ventre que te criou
É o doce objecto da minha paixão.
E comigo vive, em mim é vida.
Deste ninho, que agora é teu,
E que, de partilha sentida,
Entrego a ti, deixando-o... da minha mão...
Dou-te parte do que eu sou.

Sem quereres, ó criatura nova,
És a fonte que dá vida.
A carne que renova
Os caminhos da minha aventura.
Esta aventura vivida
Que, por ti, é mais madura.
Contigo cresci sem saberes
Mas quero que saibas, por ti,
Que foste tu,
Quem me deixou nú...
Quem me descobriu a nuca,
E me fez ver
Que tudo o que até hoje vivi,
Todas as dores e todos os prazeres,
Foram o caminho para te saber.

Da origem do ser,
Da qual brotas agora,
Do alto do princípio de todo o conhecer,
Quero que vejas a hora
Em que te olhei,
Sem te ver...
Em que te vivi,
Sem te ter...
Em que te soube,
Sem te colher...

A Flor que te floriu
É a pétala que me guia,
E me faz vibrar,
Nesta energia
De amar
Quem nunca se ouviu.
A tua Mãe
é, também,
O amor que primeiro me viu!

Quando leres o que agora te escrevo,
Lembra-te apenas,
Com todo o teu calor,
Que tudo o que de aqui levo
É o amor...
O amor que, no meio das penas,
Descobri por entre a brisa da tua Mãe.
E da tua também...


Que sejas sempre livre e procures essa liberdade dentro de ti...


Luca Santorini

Mariza nasceu para o Fado...

Mariza é nome de musa,
Voz de Deusa.
De quem usa, sem medo,
O dom que Deus lhe deu.
No dia em que nasceu,
Na pauta desafinada da vida,
Foi um milagre o que aconteceu.
Sorriu, com o mar tranquilo a seu lado,
E, nas ondas, no seu ruído calado,
Deixou uma nota sentida... um suave segredo...

Marisa, som que embala
O sentido de uma palavra que fala.
Acordaste para Portugal
Um sentimento que é tão seu.
Cobriste todo o negro do céu
Com uma canção de nostalgia...
Com um Fado que em ti cresceu.
E, da guitarra, que em tuas cordas se entrega,
Resgataste a velha chama de um povo que não se verga
À serena alma viva do amor fatal.

Mariza, nome que vem do mar,
Na sua brisa susurrar.
Levas contigo a espuma da dor
De quem a ti se entregou,
E disse: Esta Voz a ti te dou!
Para que a grites com coração
E leves tudo o que sou
A todos os cantos do Mundo.
E que, do meu ser mais profundo,
Cantes o meu maior Amor!

O Fado é o teu Senhor!

Para a fadista do meu fado

Luca Santorini

O Caminho

Vai saindo. Vai indo.
A verbalização do Ser.

Vou vendo. Vou sentindo.
A memória de viver.

Vou tendo. Vou ganhando.
Um caminho para galgar.

Vou rindo. Vou chorando.
As emoções do Despertar.

Vou dizendo. Vou falando.
Mas já não sei a quantas ando.

Na confusa sinfonia dos Temas
vou percebendo o nexo da ilusão.
E na eterna decisão dos dilemas,
Vou desfazendo os nós da Criação.

Para a Mariza com amizade

Luca Santorini

Palavras...

Sim. Não. Trapaças da razão.
Fim. Princípio. Sinais do Tempo.
Hoje. Amanhã. Criações da mente.
No tempo, na sua serpente,
Que rodeia a teia do momento,
Revela-se a conclusão:
Palavras... nada mais do que meras palavras...

Luca Santorini

Será que?

Fui sempre o que sou hoje.
Ou será que não?
Será que é a verdade que foge
Nas armadilhas da razão?

Sempre soube o que hoje sei.
Ou será que não?
Será que deixei
Que o meu ego escondesse a evolução?

Eu sinto hoje o que ontem senti.
Ou será que não?
Será que é a traidora da memória
Que me separa do coração?

Eu sempre vi o que hoje vejo.
Ou será que não?
Que na intensidade do beijo
Escapou a verdade da emoção?

O que penso hoje, sempre o pensei.
Ou será que não?
Provavelmente já não me lembro...
Com o passar dos anos ficou a erosão.

Será que sim? Será que não?
Será que interessa?
Mas, afinal, enquanto penso...
Que horas são? Onde estão?
Já tudo passou. Nada ficou.
Para quê tanta pressa?!

Luca Santorini

Um e Um

Se tu e eu somos Um,
Porque nos tratamos como dois?
Vamos, então, pois,
Ser só Um!

E se, depois,
Não formos a lado nenhum,
É porque descobrimos, a dois,
que a vontade era só de Um.

A final, Um e Um não foram Dois,
Mas Um amputado que deixou para depois
A integração do Outro, qual nenhum,
para ficar sozinho, só um.

Luca Santorini

Já não vem de mim...

Já não tenho idade
Para escolher a amizade.
Porque já tive idade
onde a escolhi.
Agora já não vem de mim...
Nasce da fonte de toda a verdade!

Luca Santorini

O homem, a mulher e a amizade

Sou homem, sou viril, sou macho.
Sou mulher, sou frágil, sou sedutora.
A amizade é um encontro de alma
Que se reconhece na vivência dos valores
E das afinidades...
Nas verdades
E nos desamores...
Na turbulência e na calma,
na verdade encantada da luz que vem do facho.

A carne do homem vibra na carne da mulher.
Não de uma qualquer,
mas da que desperta a vibração.
A matéria, na separação entre a alma e a essência,
Atormenta a intersecção,.
A força motriz da amizade,
Uma conexão independente da idade,
Nasce sem explicação.
Porque o apoio no caminho
não nasce sozinho:
- Ele vem do lado cheio
Do vazio da solidão.

Se a pulsão,
Da carne ganha a sua dimensão,
Então, na carne está
O elo encontrado
Da razão que afasta
O poder da Amizade.

Mas o homem, tal como a mulher,
Nesta fantasia nefasta,
Pode desvelar a vontade
De ser iluminado
Pela paixão de viver.
E viver,
Mais não é do que reconhecer
Fugazes segundos que se ganham,
E que se guardam até perecer.
Preservar a essência do vento,
Agarrada nas folhas que se espalham...

Apagado o intenso sabor da paixão
Sobra a doce ligação do incenso.
A experiência aromática da vela
Perdura, como só ela, à transparência
trespassada pela ilusão.
Do coração nasce, enfim, a luz...
E apagamos a cruz
do ilusõrio fulgor de uma simples visão.

A amizade entre o homem e a mulher
Nasce, pois, quando ela quer.

Luca Santorini

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Olhar para dentro

Olhem para dentro, amigos. Olhem para dentro como quem está de fora. Vejam-se nos outros e imaginem-se outros a olhar para vocês. Se o fizerem, de vez em vez, verão muitos "eus" a toda a hora. Não se confudam - é só um! mas que, da divisão, ainda chora. No dia em que o juntarem aos outros e perceberem da ordem a razão, então surgirá a epifania - a verdade da união.

Percebemos a questão?

Meditemos...

Ontem, hoje e amanhã...

Hoje só é hoje, porque não é amanhã nem ontem. E o agora, dentro do hoje, é como uma lupa posta à hora. Amanhã direi o mesmo e ontem já cá não mora. Postas bem as coisas, de que nos serve falar do que não exista agora?

Meditemos...

Tenho uma dúvida!

Tenho uma dúvida: certeza escreve-se com a cabeça ou escreve-se com o coração?

Meditemos...

Brinca, meu menino...

Brinca como eu brinco
Com um sorriso de orelha a orelha.
No sorriso de quem brinca
Está a luz de uma centelha.
Centelha divina,
De paz celestial,
Nos olhos de quem ri,
Descobre a luz universal.
O som do sorriso,
Transforma a sensação,
E na alquimia do coração
Reside o nosso juízo.
Pois quem não ri
E não vive com o riso,
Prolonga o seu caminho de ilusão.
E, na dinâmica do devir,
Está a luz da salvação.
Ri-te, amigo, ri-te,
E leva da vida o seu sabor.
Pensa que, se o amanhã existe,
É porque o dia de hoje teve mais amor.
Joga com as palavras e brinca, meu menino,
Não te tomes tão a sério,
És, e sempre serás, divino!

Jogo de palavras

Se à alma tirarmos o "l" ficamos com ama.
Se ao sentido tirarmos o "o" fica sem sentido.
Se à verdade tirarmos o "v" ela desaparece.
Se ao ser tirarmos o "e", deixamos de o ser.

Se juntarmos os desperdícios dos pedaços retirados, ficamos com a palavra "love".

Nunca os anglo-saxões imaginaram que uma só palavra sua poderia provir de uma fonte tão universal!

E nunca as palavras agora amputadas ficaram tão felizes por perderem o seu nexo - O resultado da sua entrega (o amor) é a fonte de onde todas vêm...

O ancião...

Perguntaram a um ancião o que pensava da vida.
Sem nada pensar e sem hesitar, saiu-lhe de seguida:
Não penso nada. Pois não tenho que o fazer.
A vida não é para pensar. É para viver!

Meditemos...

E por trás do Homem?

Por trás da palavra há um oceano de intenção.
Por trás de cada intenção há uma experiência e uma convicção.
Para cada experiência há um tempo e um lugar.
Para cada convicção há uma certeza a questionar.
Por trás de tudo isto está o Homem.

E por trás do Homem? Quem está para o amparar?

Meditemos...

Um novo dia...

Tenho a intuição que amanhã é um novo dia.
Básico? Evidente? Claro! o que seria?!
Então porque é que insistimos em ver na alvorada
nada mais que não seja a repetição de uma história passada?!

Meditemos...

E a história? onde está?

Se da história ter memória, é, na vida, um recurso à disposição, então porquê esconder a história, bem longe do coração?

Meditemos...

Ser ou não ser... não é uma verdadeira questão!

Se um dia me dissessem que o Homem vai acabar,
uma opção teria de tomar:

E agora? vou simplesmente ser ou deixar de ser?

Eu sou o que sou, na essência do que é ser. Então eu não tenho que escolher. Porque nunca o vou deixar de ser. Então para quê complicar? Para quê a confusão? se não há questão!

A FÉ

Tenho medo de perder a fé,
Disse-me uma alma linda de passagem.
E, pensando nesta afirmação,
Senti que assim é:
Ter medo de perder a fé
É do próprio medo a miragem,
E da esperança perder a convicção.

Se ter medo é projectar o futuro
E não confiar no escuro
Da incerteza que aí vem,
Então a fé aqui não habita,
e vai morar para um outro lugar.
E da sorte que hesita,
Como um peixe perdido no mar,
A alma fica refém.

Ter medo é não ter fé
E ter fé é não ter medo.
Deixem-me dizer-vos um segredo:
Tão verdade isto é
Que tenho a fé de não ter medo de o dizer.
E, se assim é,
então, medo deixo de ter.

Luca Santorini

SENHORA EMOÇÃO

A senhora emoção chega fugaz,
Audaz e inadvertida
Com a sensação que traz.
Como a onda que embala,
Ela vai e vém na vida,
Em surdina, com rugido ou sem fala,
De várias formas sentida.

Dizem que as senhoras são da Lua,
Que a sua sensibilidade é mais nua,
Despida de travões.
Esta eu sei que não tem
A paciência afinada...
Ela chega, à noite, sem desdém,
E parte na alvorada,
Despida de ilusões.

Ó senhora emoção
Sabemos que nos vens ensinar,
Pois tudo o que nos dás e tudo o que tu tens,
De uma ordem maior vem desaguar.
E enquanto a água passa,
Tudo em nós vibra com energia,
E tudo se abana, e tudo se agita, e tudo se inebria,
Até ao (des)cobrir da carapaça.

Se por trás da sombra está a luz,
Também a emoção se esconde nela,
Pois dela emana como um todo.
Tudo é parte de tudo,
por isso a vida é bela.
E tudo o que na vida nos seduz
emana dela.

Por isso não tenhas medo,
Ó linda senhora emoção.
Toma conta de nós
E leva-nos pela mão.
É bom ter-te a toda a hora,
Tanto faz que seja tarde ou seja cedo.
Porque habitas no nosso coração
E ecoas na nossa voz,
Ó senhora, não tenhas medo!

Luca Santorini